Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A "AURORA" PÓSTUMA DE LÊDO IVO (PARTE II)

“O velho Lêdo Ivo, como certo personagem de Bergman, há muito jogava calmamente seu xadrez com a morte. O cenário, porém, não era em preto e branco, e o nórdico mar de fundo de O sétimo selo era o mar gaio de Alagoas”

(Leia mais aqui.)


quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A AURORA PÓSTUMA DE LÊDO IVO (PARTE I)

"A Aurora de Lêdo Ivo, como em paralelo do título sobre que falaremos em um próximo artigo, há de ser póstuma: 'Estou vindo da sombra,/ do mistério da noite,/ escuto jubiloso/ a voz inumerável/ da promessa do dia'. É do outro lado do Atlântico que nos chega sua voz solar, da Espanha onde faleceu e onde seu nome conta com a simpatia de jovens poetas e um tradutor fiel – Martín López-Vega; ali recebeu homenagens em vida, e sua memória ainda as recebe. Por imposição contratual e desde o volume Mormaço, o último publicado pelo autor, os poucos inéditos saem em espanhol antes do português – e isto a ponto de Aurora jogar aqui e ali com a semelhança léxica entre as duas línguas, como veremos em breve. Que os exílios se façam pródigos na poesia é uma das desforras da palavra poética."

clique aqui e leia o ensaio no Jornal Opção
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sábado, 11 de fevereiro de 2017

OS MUTILADOS

Sofriam, convulsos, a memória das mãos,
a memória dos gostos, o ermo da memória
de terem seus pulsos – eles, que ainda não
conheciam as artes da flutuação,
de passarem través, de não serem avulsos...

Recém-chegados, recém-saídos, egressos
de si mesmos, só queriam “informação”...
Os grandes não ouviam, nem viam seus gestos;
baixavam ao pequeno – era menos? Um irmão.

Mas este, se entendia, não assim as rotas:
o que dizer, de infinito e direção...
E os sofridos, confusos, aqueles em volta

lhe silabavam febre, uma qualquer sezão
de que ficou a – memória da memória
dos mutilados e da imposição de mãos.

Desenho: Felipe Stefani

sábado, 7 de janeiro de 2017

ANAGRAMA

O medo é o demo vestido de gente
no meio da mente escondida no peito;
no escuro do quarto, no fundo do poço,
eu juro – acredite! – eu juro ter visto
um vulto de branco exibindo meu rosto
e era justo minh’alma e nada além disso.

Meu rosto era a máscara, eu hoje sei disso,
naquela minh’alma e fantasma de gente.
A cor diferente que tinha o meu rosto
era contrastante com o branco do peito
e o branco do resto que julgo ter visto
no fundo do quarto, no escuro do poço.

Não tinha mais lua na lama do poço;
no quarto era cheia, pois apesar disso,
o poço era o quarto e tudo, está visto,
era essa tristeza de ser, não ser gente.
Ter algo – acredite! – no fundo do peito
e alma assombrando com seu próprio rosto...

O demo era o medo e, olhando no rosto,
eu vi o anagrama na lama do poço
formar a palavra – me deu nó no peito,
não sei como li, no escuro, pois disso
souberam meus olhos próprios de gente
que viram, vazios, o que teriam visto

pelos seus buracos, dos olhos: o visto
nos meus que estavam de máscara e rosto
daquela minh’alma vestida de gente
mostrando o anagrama no fundo do poço,
que bem mais engana quem já sabe disso:
“o medo é o demo” no fundo do peito,

no meio da mente escondida no peito.
Minh’alma vestida conforme me visto
porém só de branco... E então, depois disso,
tirou essa máscara, o meu próprio rosto,
e deu-mo, e eu disse: eu mesmo não posso,
pois eis que ele é teu, já sou outra gente.

Gente que eu não era pulsou-me no peito;
e visto que lama era o fundo do poço,
fiz alma e do torso fiz rosto além disso.

Desenho  "Visão da Grande Revolta" (detalhe) por Felipe Stefani

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

DESDOBRAMENTO DO NATAL


Hora de desdobrarmos o Natal.
Montar a árvore e encaixar a estrela.
Renas de argila, tangê-las da caixa;
hora de desamarrotar guirlanda.
Vou lá, vou desatar o pisca-pisca;
não esquecer dos bichos do presépio.

Como é esse Menino, no presépio?
No outro ano, como fiz, pelo Natal?
Já nem desato o nó do pisca-pisca!
Ergo a árvore. Mas é folgada a estrela.
Escondo atrás a ponta da guirlanda
torta... Rena quicada volta à caixa.

Tiro de novo a rena, abro a caixa.
Se a chaga fica atrás desse presépio
(algo como o que fiz com a guirlanda),
ninguém mais vai notar, pois no Natal
ninguém repara em nada, só petisca.
Corto uma esponja – calço para a estrela.

Contudo, se bem presa vai a estrela,
não assim o Menino: não se encaixa
na manjedoura, onde O transfixa
quase esse pino do chão do presépio.
Que ideia, essa! Longino no Natal,
Paixão, infanticídio... A guirlanda,

solta-se, a ponta escusa da guirlanda.
Melhor cortar... Que não se entorte a estrela:
Natal, que se acomode no Natal,
senão eu volto tudo para a caixa,
toda essa presepada de presépio,
melhor: não gasto luz no pisca-pisca!

Mas nada cai: acendo o pisca-pisca
e faz-se a luz, jardim brota em guirlanda
e o lenho, mais as renas e o presépio
dos bichos de Noé, Noel, estrela
– e só eu sei da esponja que a encaixa:
do tal desdobramento do Natal.

Passa o Natal, vai tudo e pisca-pisca,
guirlanda e o lausperene para a caixa:
junto à estrela, o Menino do presépio.


Desenho de Felipe Stefani