Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

terça-feira, 30 de maio de 2017

RESENHA DE SILVÉRIO DUQUE PARA O "NATAL DE HERODES

"Nas muitas referências que faz ao pai ausente, por exemplo, e mesmo nas muitas faces que lhe empresta, Wladimir transforma essa ausência em uma averiguação que é mais que uma busca por outro; é na busca de si mesmo em todas as personificações que a figura paterna vem recebendo ao longo deste livro; todas se fundem nessa investigação minuciosa. O poeta não procura em outro pai ou família, não se compadece demasiado de si mesmo, muito menos perde tempo sentindo pena de si; é necessário que a orfandade não seja sentida como algo que o assombrará por toda a sua vida, muito menos sentir-se órfão de um fantasma, mas sentir-se mais vivo e certo de um sentido justamente por sentir análoga ausência. A ausência não pode ser razão de morte, mas uma razão para alcançar o que de mais vivo podemos alcançar; algo que transfigura, que em nossa busca nos reconheçamos. "

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terça-feira, 2 de maio de 2017

A ROSA RE-OBTIDA

A escrita de Maria da Conceição Paranhos pode ser compreendida em um contexto maior de sobrevivência da lírica na poesia brasileira, não exatamente por rejeição às vanguardas, mas por assimilação daquilo que nelas lhe interessava, sem perder o caráter discursivo. Seu caso, aliás, é dos mais emblemáticos, pois o segundo livro da autora,ABC re-obtido, de 1974, dialoga francamente com o Concretismo e com a forma popular do ABC, espécie de cordel em que cada letra do alfabeto inicia um poema. Se pensarmos, por exemplo, que um poeta como Ferreira Gullar, depois do Neoconcretismo, entregara-se ao panfleto no final da década anterior, com seus Romances de cordel, o ABC Re-obtido cresce em importância, pois sinaliza uma tendência. 

Tarda muito uma poesia reunida de Conceição Paranhos, para que se possa ter a exata dimensão de sua trajetória, que os textos de apresentação do recém-lançado Poemas da rosa evocam – infelizmente, com certa exorbitância e generalidades indemonstráveis. A recepção fica ainda mais problemática tendo em vista que a única antologia individual da autora, Delírio do ver, de 2002, não é clara nos critérios de seleção, dispensa a ordem cronológica das obras e exclui, sem maiores explicações, o ABC Re-obtido.