Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

sábado, 23 de janeiro de 2016

UBALDO



Que nem Pedroso, quase traio a vocação
e um lagarto me sorriu com mofa
na soalheira, eu pisando a areia fofa
da tua Itaparica de ilusão.

A real, a tal, pra mim nunca foi tão
− e até me referia com galhofa:
“A mais feia do mundo!” Ó farofa,
de quem do mundo só conhece o vão

que vai do seu aqui ao longe perto,
e ainda é sem Berlim, é sem deserto,
para entender por que não pode a ponte

ligando a ilha ao seu não-ser-mais-ilha:
“Não vai ser coisa boa, minha filha!”
Uma voz cava adverte o horizonte.


sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

"Culpe o vento" em Portugal:


"De um poeta mais jovem, que já antes figurou na 'DiVersos', Wladimir Saldanha, inclui-se entre outros o poema 'O Terceiro Mar', para nós notável também pela tessitura entrelaçada de temas da cultura e da história brasileira e portuguesa" (do Editorial da Revista DiVersos -- Poesia e Tradução, n. 23).

 https://sempreempe.wordpress.com/2016/01/12/diversos23/#more-413

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

EM SURDINA


Tranquilos, na meia-luz
Que os altos ramos adensam,
Deixemos o amor a flux
Deste silêncio imenso.

Corações, almas juntemos
E sentidos extasiados
Entre os langores amenos
Dos pinhos e dos ervados.

Teus olhos, então, semicerra,
Cruza os teus braços a jeito,
E do sono a que se aferra,
Afasta os sonhos do peito.

Deixemo-nos enlevar
pelo acalanto da altura
que vem, a teus pés, frisar
a relva fulva que ondula.

E a noite dos lutulentos
Carvalhos, quando cair,
Voz de nossos desalentos,
Um rouxinol vai-se ouvir.

PAUL VERLAINE.
(Trad.: Wladimir Saldanha.)


Ouça a música de Fauré:
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En sourdine 

Calmes dans le demi-jour
Que les branches hautes font,
Pénétrons bien notre amour
De ce silence profond.

Fondons nos âmes, nos cœurs
Et nos sens extasiés,
Parmi les vagues langueurs
Des pins et des arbousiers.

Ferme tes yeux à demi,
Croise tes bras sur ton sein,
Et de ton cœur endormi
Chasse à jamais tout dessein.

Laissons-nous persuader
Au souffle berceur et doux
Qui vient, à tes pieds, rider
Les ondes des gazons roux.

Et quand, solennel, le soir
Des chênes noirs tombera
Voix de notre désespoir,
Le rossignol chantera.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

RONDÓ DOS CAVALINHOS (com grifo & letra grande)

(...)

Os cavalinhos correndo,
E nós, cavalões, comendo...
O Brasil politicando,
Nossa! A poesia morrendo...
O sol tão claro lá fora,
O sol tão claro, Esmeralda,
E em minh'alma — anoitecendo!

Manuel Bandeira (grifamos).

domingo, 3 de janeiro de 2016

A CRISTO MORTO

Não me apetece a carne da morte que é eterna.
(Desaparecer, para sempre, um dia eu hei de.)
O que me dobra e verga, da cabeça à perna,
é o fim descomunal da eternidade em Ti.

Nauro Machado. In: MACHADO, Nauro. Antologia poética. Rio de Janeiro: FBN/IMAGO/UMC, 1998, p. 232.