Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

domingo, 30 de outubro de 2016

PAREIDOLIA

Vi o rosto que primeiro
morou, sonhou com a sanca,
ou o rosto do pedreiro

naquela parede branca?

Mordi o rosto sem queixo
mas com as maçãs que a mão
talhou, do próprio padeiro,

ou pé do demo no pão?

Rostos de mofo e de mofa,
de vislumbre ou sugestão,
sempre os tive: tecelão

atado à almofada, ao sofá,

oleiro entranhado em vaso,
carpina em cambau à porta:
um rosto que traz o acaso,

ou artes da moura-torta?

Sempre voltaram, contudo,
a meu desgosto pregresso:
madeira, argila, veludo,

a massa do pão e o gesso.

Ergui meus olhos à nuvem,
lasso de rosto que passa...
Verônica ao vento, agônica,

sudário que o azul esgarça,

o eterno, se ela mo dava
era quando rosto amorfo!
Nos trapos que eram os cirros,

o rosto roto do Cristo.


Desenho por Felipe Stefani



quinta-feira, 27 de outubro de 2016

ONDE O VELHO GRAÇA GANHA IMPERDOÁVEL BASTARDO

Certo me ordena cortar mais uns quês,
igual fazia com o seu Ricardo:
um Paulo Honório meu, de quando em vez,
e Madalena minha mãe é fardo.

Outrossim, entrementes – português
sem isso, e revolução? Vírgula e traço.
Urubu é ave” – não perdoa a vez
que Lins do Rego chamou um de pássaro

em Moleque Ricardo. As manchas brancas
(na caatinga) que eram ossadas: guardo
o susto dessa imagem sem pelancas;

mas, sei, não sou nem ave nem Ricardo
pousado nele – a foto sobre a banca –
e não perdoa o meu excesso de bastardo. 

(de "Natal de Herodes".)



segunda-feira, 17 de outubro de 2016

SONETO DO OURIÇO

O mundo, por um,
por um orifício,
parece difícil.
Melhor o debrum...

Não vê: toda a vida
se vai no serviço
do ouro, do ouriço,
que entanto oxida.

Se julgam preguiça,
ou só avareza
(embora a certeza

que assim ele enguiça
no seu mecanismo!)
− o mar é cinismo.

(De "Lume Cardume Chama".)