Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

sábado, 1 de fevereiro de 2014

AS TRÊS ALMAS DE VERLAINE (I)

 
Hoje mais lembrado em função de sua tumultuosa relação com Rimbaud, que lhe rendeu inclusive uma prisão (após ter atirado no amante), Paul-Marie VERLAINE (1844-1896)  é também referido como emblema maior do "poeta maldito" mundo afora: uma associação tão nebulosa quanto festejada entre sua "persona" boêmia e a lira sensual e sacrílega que corresponde apenas a uma parte -- significativa, embora --  de sua obra.
 
Sob a sombra de Rimbaud, ou sob a sua própria, em qualquer caso se perde muito do poeta. O autor que perambulou por abrigos públicos e afogou-se em muito absinto, o Verlaine dos "Poemas Saturnianos" ou das "Festas Galantes", foi também um grande evocativo da infância e deixou-nos pelo menos um livro de legítima inspiração religiosa: "Sagesse", escrito após sua experiência na prisão. A estela que, no Jardim de Luxemburgo, em Paris, homenageia Verlaine, tenta equilibrar as vozes (ou "almas") principais de sua poesia: a sensual, a infantil e a religiosa, alegoricamente representadas sob a fisionomia contorcida do criador. Suspeito eu que a prevalência de "um Verlaine" mundo afora, ou principalmente no Brasil, seja mais um caso clínico de má recepção literária, ajudado por aportes ideológicos posteriores, daquele tipo que se compraz em afirmar o poeta como um quase delinquente, marginal etc.
 
Estela de Verlaine no Jardim de Luxemburgo, em Paris, de autoria do escultor
Auguste de Niederhaüsern-Rod . No detalhe, as três "almas": religiosa, sensual e infantil.
  
 A seleção abaixo, porém, se não dá conta dessa variedade, talvez represente um bom passeio pelo Verlaine mais conhecido, e aliás adorável: o grande nome da poesia simbolista ou decadentista, que tinha por profissão de fé a musicalidade das palavras. Foi esse o Verlaine que influenciou o português Camilo Pessanha ou nossos Alphonsus de Guimaraens e Cruz e Sousa. Deixo os poemas religiosos e os que tratam da infância para outra oportunidade.
 
Traduziram Verlaine, no Brasil, Onnestaldo de Pennafort, Guilherme de Almeida, Jamil Amansur Haddad e, de modo mais pontual, Alphonsus de Guimaraens, Augusto de Campos e Ivo Barroso, entre outros. Uma boa seleção pode ser conferida no blog Escamandro. Em papel, recentemente, as traduções de Guilherme de Almeida ("Paralelamente a Paul Verlaine") foram reeditadas pela Hedra sob o título de "A voz dos botequins". Mas, entre todos, foi Onnestaldo o que mais se dedicou a Verlaine, traduzindo obras integrais e publicando antologias.
 
Só posso considerar minhas investidas no plano da homenagem a estes grandes, e mais do que todos a Onnestaldo, de quem me sinto, contudo, irremediavelmente distante, por incapacidade ou liberdade, como tento dizer em um soneto-comentário colocado ao final, e dedicado a uma dupla de amigos a quem devo estas e outras imprudências no terreno da tradução.
 



Verlaine retratado em diferentes momentos de sua vida.


 
 LUZ DA LUA

                                   Verlaine, Fêtes galantes


Alma que é tua, tela de um oásis,
A qual encantam bufos e tartufos,
Nos alaúdes, em fanfarras, quase
Tristonhos sob as máscaras de astutos.*
 
Se cantam sempre, sempre em tom menor,
Ao triunfante amor e à vida sua,
Que dizem boa, com ar de pior,
Num tal cantar se infunde a luz da lua,
 
A calma luz da lua bela e triste
Que faz sonhar dos ninhos c’o infinito,
Os passarinhos, e soluça em riste
O êxtase das fontes nos granitos.
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* Variante para a primeira estrofe:

Alma que é tua, paisagem seleta,
A qual encantam bufos e tartufos,
Nos alaúdes, em fanfarras, discreta-
Mente tristes, nas máscaras de astutos.

 
 CLAIR DE LUNE



Votre âme est un paysage choisi
Que vont charmant masques et bergamasques
Jouant du luth et dansant et quasi
Tristes sous leurs déguisements fantasques.

Tout en chantant sur le mode mineur
L'amour vainqueur et la vie opportune
Ils n'ont pas l'air de croire à leur bonheur
Et leur chanson se mêle au clair de lune,

Au calme clair de lune triste et beau,
Qui fait rêver les oiseaux dans les arbres
Et sangloter d'extase les jets d'eau,
Les grands jets d'eau sveltes parmi les marbres.

 
 

CANÇÃO DE OUTONO

Verlaine, Poèmes Saturniens

Monotonias
Das melodias
        Outonais:
Ferem-me o imo
Tais violinos
         Lacrimais. 

Se os dias bons
Voltam nos sons
            De cada hora,
Eu cá sufoco −
Pálido, rouco,
            Sou quem chora.

Sou quem partiu
Ao vento vil
            Que me enxota
De cá, de lá,
Parelha da
             Folha morta.

 
CHANSON D'AUTOMNE
 

Les sanglots longs
Des violins
         De l'automne
Blessent mon Coeur
D'une langueur
         Monotone.
 
Tout suffocant
Et blême, quando
        Sonne l'heure,
Je me souviens
Des jours anciens
          Et je pleure
 
Et je m'en vais
Au vent mauvais
        Qui m'emporte
        Deçà, delà,
Pareil à la
        Feuille morte.
 
 

ARIETA (III)

Verlaine, Romances sans paroles

 
Há choro em meu coração
Como há chuva na cidade;
Mas que angústia que me invade
E molha meu coração?
 
Doce tilintar da chuva
Pelos tetos e calçadas!
Para um peito que se enfada,
Que canções há nesta chuva!

Há um choro sem razão
Em meu peito mareado.
Mas, quê! Não há traição?...
Este luto é sem finado.

É esta a pior angústia
Por não se saber motivo.
Sem amigo ou inimigo,
Meu coração se angustia.
 
ARIETTE (III)

 
Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur ?


Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s'ennuie,
Ô le chant de la pluie !


Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s'écoeure.
Quoi ! nulle trahison ?...
Ce deuil est sans raison.
 
 C'est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine.
Mon coeur a tant de peine.


 
ARTE POÉTICA
                                Verlaine, Jadis et Naguère
 
Musicalidade antes de tudo,
E prefere, por um tal preceito,
O Sem-Par mais vago, rarefeito,
Em que nada pousa, ou pesa rudo.

E nem será mau que te consintas
Nas palavras, a mão desatenta:
Cara é a canção, por mais cinzenta,
De Exato e Inexato, a duas tintas.

Olhos que são belos sob os véus,
Dias que são trêmulos no zênite,
Céus de outono baços, onde hesite,
O esgarçado azul de claros céus!

Pois mister é o Matiz, não a falta
Da Cor, nem ela − não: só o Matiz!
Oh! O matiz é bem aquele triz
Da pompa ao sonho, da trompa à flauta!

Corre longe da Trova ferina
De Espírito cruel, foge à vil
Risota que mareja o Anil,
Todo esse alho de vulgar cantina.
 
Pega a eloquência e torce-lhe a goela!
Farás muito bem agindo forte
contra a Rima: faz que te suporte.
Pois, se ninguém freia, aonde vai ela?

Oh! Quem dirá dos males da Rima?
Que menino surdo ou gringo tonto
Fez-nos essa joia com desconto,
Que soa falsa e oca, sob a lima?

Musicalidade sempre e antes!
Que seja, pois, teu verso, a substância
A evanescer na alma da fragrância
Entre amores outros, céus distantes.

Ao vento áspero, em boa aventura,
Vá teu verso esparso, na manhã;
Que saiba a tomilho e a hortelã...
E todo o resto é literatura.


 
 Art poétique
De la musique avant toute chose,
Et pour cela préfère l’Impair
Plus vague et plus soluble dans l’air,
Sans rien en lui qui pèse ou qui pose.
Il faut aussi que tu n’ailles point
Choisir tes mots sans quelque méprise :
Rien de plus cher que la chanson grise
Où l’Indécis au Précis se joint.
C’est des beaux yeux derrière des voiles,
C’est le grand jour tremblant de midi,
C’est, par un ciel d’automne attiédi,
Le bleu fouillis des claires étoiles !
Car nous voulons la Nuance encor,
Pas la Couleur, rien que la nuance !
Oh ! la nuance seule fiance
Le rêve au rêve et la flûte au cor !
Fuis du plus loin la Pointe assassine,
L’Esprit cruel et le Rire impur,
Qui font pleurer les yeux de l’Azur,
Et tout cet ail de basse cuisine !
Prends l’éloquence et tords-lui son cou !
Tu feras bien, en train d’énergie,
De rendre un peu la Rime assagie.
Si l’on n’y veille, elle ira jusqu’où ?
O qui dira les torts de la Rime ?
Quel enfant sourd ou quel nègre fou
Nous a forgé ce bijou d’un sou
Qui sonne creux et faux sous la lime ?
De la musique encore et toujours !
Que ton vers soit la chose envolée
Qu’on sent qui fuit d’une âme en allée
Vers d’autres cieux à d’autres amours.
Que ton vers soit la bonne aventure
Eparse au vent crispé du matin
Qui va fleurant la menthe et le thym…
Et tout le reste est littérature.  




 

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Inscrição da lápide de Verlaine, no Cemitério de Baitgnolles, Paris.
 
  
O MEU MALDITO
                 
                        Para João Filho e Claudio Sousa Pereira
 
Honestamente, não quero de Onestaldo
traduzir com igual arte o meu Verlaine,
menos por ser covarde, embora eu treine
para penas fortes; porém, o tal do

tradutor que posso ser, se é que algo
puder, é com toantes, vou em frente,
mero estudante de francês, fazei-me,
das Alliances, vento mau, o saldo!

A mim abusam tantos bergamascos,
e máscaras, e violões por violinos!...
Decassilábicos por alexandrinos?

Isso não faço, tenho cá meus ascos...
(Mas já mudei um mármore em granito.)
O meu Verlaine é clean? Sempre maldito!