Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

segunda-feira, 16 de maio de 2016

ONDE CECÍLIA PARTICIPA DE UMA PESCA

Estes não são peixes − mas como não pescá-los?
Soube de um haras com cavalos afogados.

Como não salvá-los, a rede na piroga,
bateau ivre na enchente – mas Cecília não se afoga

e volve à terra crinas, cascos, um relincho
− o susto dos cavalos – mas é rede ou guincho? −

e para constatar, saber logo em seguida
que os cavalos são outros, Cecília: coisa ida

e que não trota mais, figuras que reúno
aqui, neste papel: o alazão, o libuno,

o baio, o zaino −  como peixes, que não fossem
amigos da água: multicores, dando coices!

E se da terra já não for o que é terrestre
e se chorar esguichos, uma estátua equestre,

são lágrimas, Poeta, e não do cavaleiro
que proclama ou liberta, imóvel e certeiro,

mas do centauro em que me gasto, o centauro
errático, inútil:  neste em que me exauro

de pescar tritões!... – mas, como não pescá-los?
Era um haras, soube. E afogados, seus cavalos.

(De "Lume Cardume Chama".)

domingo, 8 de maio de 2016

MAIS QUE VIÚVA E ÓRFÃ

Mais que viúva e órfã
está a mulher com o marido
está a mulher com seus pais
− mesmos avós de seu filho.

Entre viúvo e órfão
está o homem casado
está também com seus pais
− outros avós, de seu lado.

O homem olha a mulher
dormindo placidamente.
Pensa que placidamente:
é mais que viúva e órfã.

Um dia também a viu
dormindo placidamente.
Ali também se enganava
porquanto ficasse atenta

que dentro dela se urdia
entre marido e esposa
entre dois pares de avós
alguém que desconhecia

mas lhe dava uns pontapés.
Entre mulher e mãe
começava a situar-se
enquanto fingia dormir

como também finge agora
dormir, sentir fome, sorrir,
esta mulher, que vive
além das palavras estreitas...

Sem nome, dilui-se a mulher
num ser que não é mais ela;
ou talvez que se evapore,
mais que líquida e sólida,

mais que viúva e órfã,
em demanda de seu filho:
nunca menos que mãe.

(De "Culpe o vento".)

domingo, 1 de maio de 2016

GLÓRIA MORTA

Tanto rumor de falsa glória,
Só o silêncio é musical.
Só o silêncio,
A grave solidão individual,
O exílio em si mesmo,
O sonho que não está em parte alguma.

De tão lúcido, sinto-me irreal.

DANTE MILANO.