Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

NOTÍCIAS DO ESPELHO PARTIDO



Para Victor Grizzo.


I

No espelho do céu partido
um peixe se reflete e multiplica
em outros tantos, num cardume
que se refrata e se deforma

e nascem outros, oblongos,
pontiagudos, teleósteos:
mosaico efeito dos cacos
do espelho do céu, partido.

O primeiro peixe, vaidoso,
avô e pai do mar inteiro,
quem o jogou no espelho?

Quem o tirou do céu, da noite,
constelado e calmo e só,
estrela cadente, praieiro?




 II

Não se sabe quem o peixe-
estrela jogou no espelho:
também eu não sei por que
só eu vejo, ou vi primeiro.

Não sei por que, no cardume,
vejo o mesmo peixe múltiplo.
Vejo a chama, vejo o lume
e sei do milagre por último.

Se são cacos, era sangue
que devia haver no mar.
Não são cacos de um espelho?

Vermelho é o Mar Vermelho?
Atentado contra o czar:
sei de sangue azul no mar.




III

O sangue azul é da estrela-
peixe, e a coisa tá russa:
perdeste o senso, vê-la
foste tu, se ainda pulsa

e acreditas em lendas
que nos devolvem as rimas!
Abre as janelas, emendas
a noite na casa, cortinas

como gaze em torniquete
enquanto já se reflete
a lua no teu tapete

e o céu naquele espelho
partido que é o mar:
água-viva, Victor. Pinceladas

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