Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

sábado, 21 de março de 2015

VENDE-SE (PREGÃO ACIDENTAL)


Vende-se esta fazenda
sem as dores, hectares
somente, e na Soares
Lopes (Centro), vende-se
um ventiladoapartamento
            (frequentado pelo vento)
sem ninguém olhando o mar
           
Pois se vende agora tudo
que foi sonho de ficar:
todo um sul que desaprende
o seu norte de comprar

se o cacau, de pouca renda,
não sustentando a fazenda,
levanta o letreiro no ar:

VENDE-SE ESTA FAZENDA

            com pasto, curral, muar,
            e cocho, barcaça, moenda
            − isso não tem, é por rimar;
                        só terá talvez ainda
                        uma vista de outro mar:
o de uma Atlântica Mata
que no céu vai naufragar
           
enquanto, novos tropeiros
nonsenses, a debandar,
à falta de burros, veleiros,
vão ilheenses voar

por um perseguido janeiro
que tentam atocaiar:
cidade de veraneio,
loteada como está,

            embora o sol não se venda,
            e falte sem avisar;

embora seja barrento
perau, o mar de afogar.

Mas se querem liquidez,
logo aceitam trocar
por qualquer afogamento
            o morar e o plantar;
            que se venda o apartamento
            de vez, a fazenda e o mar
que se avista, praia Atlântica

            ou Mata – mas não se matar.


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In: "Cacau inventado". Ilhéus: Mondrongo, 2015 (no prelo).


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