Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

domingo, 30 de outubro de 2016

PAREIDOLIA

Vi o rosto que primeiro
morou, sonhou com a sanca,
ou o rosto do pedreiro

naquela parede branca?

Mordi o rosto sem queixo
mas com as maçãs que a mão
talhou, do próprio padeiro,

ou pé do demo no pão?

Rostos de mofo e de mofa,
de vislumbre ou sugestão,
sempre os tive: tecelão

atado à almofada, ao sofá,

oleiro entranhado em vaso,
carpina em cambau à porta:
um rosto que traz o acaso,

ou artes da moura-torta?

Sempre voltaram, contudo,
a meu desgosto pregresso:
madeira, argila, veludo,

a massa do pão e o gesso.

Ergui meus olhos à nuvem,
lasso de rosto que passa...
Verônica ao vento, agônica,

sudário que o azul esgarça,

o eterno, se ela mo dava
era quando rosto amorfo!
Nos trapos que eram os cirros,

o rosto roto do Cristo.


Desenho por Felipe Stefani



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