Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

DESDOBRAMENTO DO NATAL


Hora de desdobrarmos o Natal.
Montar a árvore e encaixar a estrela.
Renas de argila, tangê-las da caixa;
hora de desamarrotar guirlanda.
Vou lá, vou desatar o pisca-pisca;
não esquecer dos bichos do presépio.

Como é esse Menino, no presépio?
No outro ano, como fiz, pelo Natal?
Já nem desato o nó do pisca-pisca!
Ergo a árvore. Mas é folgada a estrela.
Escondo atrás a ponta da guirlanda
torta... Rena quicada volta à caixa.

Tiro de novo a rena, abro a caixa.
Se a chaga fica atrás desse presépio
(algo como o que fiz com a guirlanda),
ninguém mais vai notar, pois no Natal
ninguém repara em nada, só petisca.
Corto uma esponja – calço para a estrela.

Contudo, se bem presa vai a estrela,
não assim o Menino: não se encaixa
na manjedoura, onde O transfixa
quase esse pino do chão do presépio.
Que ideia, essa! Longino no Natal,
Paixão, infanticídio... A guirlanda,

solta-se, a ponta escusa da guirlanda.
Melhor cortar... Que não se entorte a estrela:
Natal, que se acomode no Natal,
senão eu volto tudo para a caixa,
toda essa presepada de presépio,
melhor: não gasto luz no pisca-pisca!

Mas nada cai: acendo o pisca-pisca
e faz-se a luz, jardim brota em guirlanda
e o lenho, mais as renas e o presépio
dos bichos de Noé, Noel, estrela
– e só eu sei da esponja que a encaixa:
do tal desdobramento do Natal.

Passa o Natal, vai tudo e pisca-pisca,
guirlanda e o lausperene para a caixa:
junto à estrela, o Menino do presépio.


Desenho de Felipe Stefani

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