Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Balada – Marra Signoreli/ Un grand sommeil noir – Paul Verlaine


A festa do condomínio
prosseguia à noite sem
exercer o seu fascínio
nos meninos que também
festejavam no solário.
E eu ouvia este som breve...
Quem colocou pra tocar
uma peça do Varèse?

A festa do condomínio,
eu a acompanhava só,
fumando na quadra até
que uma menina com dó
pegou-me as mãos pra uma dança.
Venha, é uma dança tão leve! 
Moça, é impossível dançar
uma peça do Varèse.

A festa do condomínio
prosseguia à noite enquanto
aquela moça em meus braços
levava-me em seu domínio
até sumir, sem espanto,
em cada passo, etérea
fumaça, lenta no ar,
como a peça do Varèse.

Silêncio, silêncio! Era
Um sonho a mais que partia?
Que sono imenso e escuro
Tombou sobre minha vida?

Marra Signoreli.


















Un grand sommeil noir
Tombe sur ma vie :
Dormez, tout espoir,
Dormez, toute envie !

Je ne vois plus rien,
Je perds la mémoire
Du mal et du bien...
O la triste histoire !

Je suis un berceau
Qu'une main balance
Au creux d'un caveau :
Silence, silence !

VERLAINE. Sagesse.










Sono umbroso enorme
Baixa em minha vida:
Dorme, anelo, dorme;
Dorme, elã sem lida!*

Nem mais vejo nem
Tenho mais memória
Do mal e do bem...
Oh, que triste história!

À mão que me embala,
Um berço eu me penso
No vão de uma vala:
Silêncio! Silêncio!

 __________
 Variante:  Sono grande e escuro/ Baixa em minha vida:/ Dorme, ó bom futuro;/ Dorme, ó investida!

Verlaine. Sagesse. Trad.: Wladimir Saldanha.




















Sonolência mansa...

Sonolência mansa
Minha vida invade:
Que durma a esperança 
E durma a vontade.

Não vejo ninguém,
Perdi a memória
Do mal e do bem...
Ó a triste história...

Sou berço a uma nova
Mão branca suspenso
No fundo da cova:
Silêncio, silêncio!

Trad. de Jamil Amansur Haddad.



 




















Negro sono avança
sobre a minha vida!
Ah! dorme, esperança,
dorme, fé perdida!

Já não vejo nada,
já perco a memória
da vida passada...
oh! a triste história!

Um berço suspenso
por mão linda e nova
sou eu sobre a cova:
silêncio! silêncio!

Trad. de Leão de Vasconcelos. 


Ouça a "Balada", de Marra Signoreli, recitada por Roberto Mallet:



Ouça aqui o poema de Verlaine musicado por Varèse:

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