Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

segunda-feira, 16 de maio de 2016

ONDE CECÍLIA PARTICIPA DE UMA PESCA

Estes não são peixes − mas como não pescá-los?
Soube de um haras com cavalos afogados.

Como não salvá-los, a rede na piroga,
bateau ivre na enchente – mas Cecília não se afoga

e volve à terra crinas, cascos, um relincho
− o susto dos cavalos – mas é rede ou guincho? −

e para constatar, saber logo em seguida
que os cavalos são outros, Cecília: coisa ida

e que não trota mais, figuras que reúno
aqui, neste papel: o alazão, o libuno,

o baio, o zaino −  como peixes, que não fossem
amigos da água: multicores, dando coices!

E se da terra já não for o que é terrestre
e se chorar esguichos, uma estátua equestre,

são lágrimas, Poeta, e não do cavaleiro
que proclama ou liberta, imóvel e certeiro,

mas do centauro em que me gasto, o centauro
errático, inútil:  neste em que me exauro

de pescar tritões!... – mas, como não pescá-los?
Era um haras, soube. E afogados, seus cavalos.

(De "Lume Cardume Chama".)

Nenhum comentário:

Postar um comentário