Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

domingo, 8 de maio de 2016

MAIS QUE VIÚVA E ÓRFÃ

Mais que viúva e órfã
está a mulher com o marido
está a mulher com seus pais
− mesmos avós de seu filho.

Entre viúvo e órfão
está o homem casado
está também com seus pais
− outros avós, de seu lado.

O homem olha a mulher
dormindo placidamente.
Pensa que placidamente:
é mais que viúva e órfã.

Um dia também a viu
dormindo placidamente.
Ali também se enganava
porquanto ficasse atenta

que dentro dela se urdia
entre marido e esposa
entre dois pares de avós
alguém que desconhecia

mas lhe dava uns pontapés.
Entre mulher e mãe
começava a situar-se
enquanto fingia dormir

como também finge agora
dormir, sentir fome, sorrir,
esta mulher, que vive
além das palavras estreitas...

Sem nome, dilui-se a mulher
num ser que não é mais ela;
ou talvez que se evapore,
mais que líquida e sólida,

mais que viúva e órfã,
em demanda de seu filho:
nunca menos que mãe.

(De "Culpe o vento".)

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