Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

sábado, 11 de junho de 2016

RETRATO DO PAI AUSENTE EM TÉCNICA MISTA (desenho: Felipe Stefani; voz: João Filho)


Cavei-o em alto relevo
para fazê-lo carimbo:
assim, a xilogravura
tirou-o primeiro do limbo;

foi como cavar em cavacos
o dia, que ele me dera,
para avultar os seus traços
de anoitecer tinta negra.

Fiz alguns pais de sucesso
com minha boa matriz;
mas, artesão, o meu preço
não pagava um só que fiz.

Quando, após umas provas,
só se mostrava opalino,
sonhei-me artista co’as novas
feições de quase menino

e aproveitei as mais claras
para fazer uma encáustica:
cera quente na espátula
que garantisse umas caras

duráveis, como de antigas
urnas que há, funerárias;
lá onde a cera aglutina
pais de nobrezas várias.

Mas eis que minha encáustica
logo ficou craquelada:
faltou dâmar, ou nobreza
na dama que é minha espátula?

Ora, assim como um restauro,
pintei a óleo seus veios:
o craquelê dos receios
compôs, fiel, um mosaico

sobre que apliquei verniz
(mais por não se soltasse
do que para dar matiz
de brilho na tal da face)

e, logo que foi seco
o ausente em técnica mista,
pus a vender o meu treco,
mas, ai! Eu não era artista.

Por isso aqui o penduro,
a ver se agrado um olho:
xilogravura, restauro
de si, encáustica e óleo,

eu dou até de presente,
se nunca mais tive paz;
levai o meu pai ausente,
pois já tentei aguarrás.

Ouça também na voz de Pedro Sette-Câmara:

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