Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

UM POEMA DE VERLAINE



Abaixo, uma tentativa de tradução do poema "Ecoutez la chanson bien douce", de Verlaine. No seu aniversário de falecimento, 08 de janeiro, dia que, neste ano de 2015, é também de luto oficial na França, pelo atentado terrorista da véspera.

Esse poema -- um dos mais antologiados de Verlaine -- foi feito com nítido sentido matrimonial, é um epitalâmio -- mas, se a biografia do poeta se desvia da intenção da escrita, pois acabou abandonando novamente a esposa Mathilde Mauté, o epitalâmio, de outro modo, também ultrapassa o momento de reconciliação amorosa, podendo ser lido como um melodioso convite à paz, feito pelo grande artista que foi Verlaine.

Ainda estou melhorando essa tradução, mas segue, pelo dia de hoje.
O poema integra o livro "Sagesse" (Sabedoria).


ESCUTA A CANTIGA MAIS DOCE

Escuta a cantiga mais doce,
Que só plange por teu prazer;
Discreta, ela morre ao nascer:
Tremor de espuma, que a água trouxe!
 
É a mesma (e querida?) afinal,
Essa voz que te soa oclusa,
Tal como viúva reclusa
Malgrado por isso leal.
 
E nas longas pregas do véu
Que palpita aos ventos de outubro,
Esconde e mostra a um peito rubro
A verdade, estrela no céu.

Pois diz, a conhecida voz,
Que é só bondade a nossa vida,
Que do ódio e da ânsia delida
Nada fica, da morte empós.

Ela fala também da glória
De ser simples sem mais procuras
E das bodas de ouro e ternuras
De uma paz feliz, sem vitória.

Acolhe essa voz que persiste
No seu ingênuo epitalâmio.
Vem, se nada é melhor ao ânimo
Que a outro fazer menos triste!

Da alma sofrida, não selvagem,
Escuta uma canção mais sábia:
A sua moral é sem lábia!...
Sabe-se em dor e de passagem.


 
Paul Verlaine em 1890, retratado por E. Carrière




 











Ecoutez la chanson bien douce


Ecoutez la chanson bien douce
Qui ne pleure que pour vous plaire,
Elle est discrète, elle est légère :
Un frisson d'eau sur de la mousse !

La voix vous fut connue (et chère ?)
Mais à présent elle est voilée
Comme une veuve désolée,
Pourtant comme elle encore fière.

Et dans les longs plis de son voile,
Qui palpite aux brises d'automne,
Cache et montre au coeur qui s'étonne
La vérité comme une étoile.

Elle dit, la voix reconnue,
Que la bonté c'est notre vie,
Que de la haine et de l'envie
Rien ne reste, la mort venue.

Elle parle aussi de la gloire
D'être simple sans plus attendre,
Et de noces d'or et du tendre
Bonheur d'une paix sans victoire.

Accueillez la voix qui persiste
Dans son naïf épithalame.
Allez, rien n'est meilleur à l'âme
Que de faire une âme moins triste !

Elle est en peine et de passage,
L'âme qui souffre sans colère,
Et comme sa morale est claire !...
Ecoutez la chanson bien sage.

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