Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Inquisições no Museu


 
De Arte Sacra e saqueado,

seus poucos santos sobrados

fazem pensar nos ladrões.

 

Mais turista que prelado,

entre um nicho e outro vago,

começo as inquisições:

 

perdoada, Madalena,

mereceu condenações?
 
E Cecília, santa mártir,

 

foi salva, de sua parte,

pelas poucas devoções?

De Teresa, confidente,

 

não viram, no olhar ausente,

o êxtase das visões?

São Francisco, despojado,

 

mais pobre que o desejado,

inspirava abnegações?

As hipóteses latejam

 

no tabuado que estala:

atraso em manutenções.

Do claustro, o jardim no centro,

 

nivelado com cimento,

enclausura florações.

É a mesma ignomínia

 

de uma reforma faminta:

certa pia de alumínio

no salão de refeições.

 

No museu dilapidado,

outrora convento e igreja,

não há quase que se veja:

 

só vazio, por todo lado

− rarefeitos encontrões.

Um Senhor Morto, deitado,

 

sem o féretro esperado,

semelha o Crucificado

sem madeiro, que roubaram

 

essas outras legiões:

braços abertos no ar

ou pendidos, par em par,

 

aguardam fortes ladrões:

são pesados de levar?


São leves ressurreições!
 
 

2 comentários:

  1. Amo sua poesia. Wladimir, leve, reflexiva. Para mim seu texto sempre é encantador. Obrigada, vc faz aniversário e nos presenteia. Lindo.

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  2. Obrigado, Marta! A poesia é um presente que só vale partilhado -- e melhor com quem a recebe de braços abertos. Abração!

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