Só quero o que for meu: o caco, o nicho,/lá onde fura a noite a estrela-bicho. ("Culpe o vento".)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Lêdo & Lygia: São Paulo, Livraria Teixeira, 1973




O encontro foi matéria da coluna de 10 de dezembro de 1973, do jornalista Tavares de Miranda, na Folha de São Paulo. Na Livraria Teixeira, em Sampa, Lêdo Ivo lançava Ninho de cobras, e Lygia, As meninas, ambos publicados pela José Olympio. Na legenda da foto, Miranda adverte que, “quando duas personalidades literárias como Lêdo Ivo e Lygia Fagundes Telles [...] se encontram, o melhor que vocês têm a fazer, meus amigos, é escutar o diálogo”. E apresenta aos leitores duas pequenas séries de questões de um escritor a outro, no estilo “pingue-pongue” que ainda hoje é mania de nossa imprensa.
Se o colunista ou outro colega da Folha pautou as perguntas, não sei. Mas o encontro  vale pelo que significa como "momento" de nossa cultura, e sobretudo pelos dois autores, tão diferentes e tão próximos: um poeta que escreve romances e uma romancista que sempre se refere a poetas quando chamada a refletir sobre seu ofício (é o que faz Lygia, aliás, em uma das respostas, como poderemos conferir).
Abaixo transcrevo a matéria, que ilustrei com capas das primeiras e das mais recentes edições de Ninho de Cobras e de As meninas. Não estranhem a ausência da primeira pergunta: é assim mesmo que está no jornal, subentendida na resposta de Lygia. Registro ainda que, tendo tomado conhecimento desse  encontro memorável pesquisando no Acervo Lêdo Ivo do Instituto Moreira Salles (RJ), fiquei surpreso e feliz ao descobrir que a própria Folha de São Paulo disponibiliza gratuitamente a matéria, como outras de seu acervo, no site do jornal (por tempo indeterminado, e quero crer que eterno). Clique aquie veja o arquivo original da Folha, enquanto podemos!  
Desta vez não vou me alongar no post, que também destoa dos demais por não ser exatamente uma reflexão de crítica literária. Mas o motivo é dos mais nobres: aí estão, juntos, meus dois queridos escritores, em uma cena que materializa a mélange de minhas leituras mais afetivas: Lêdo Ivo, com seu mar simbólico, seu pendor para o mergulho na história alagoana e no passado literário, que um dia explodiu na prosa luxuriante de Ninho de cobras; e Lygia, urbana e intimista, com o jogo de vozes de suas meninas, a maestria do detalhe, os pequenos símbolos cotidianos alçados a uma dimensão maior − instituindo no texto aquele simbolismo ad hoc que José Paulo Paes tão bem definiu, em ensaio sobre a autora, nos Cadernos de Literatura Brasileira do IMS.
Mas já vou falando demais. Como bem dizia Tavares de Miranda, em 1973 e ainda com grande valia, o melhor a fazer é escutar esse diálogo. Vamos a ele!
 
 
Lêdo Ivo pergunta a Lygia Fagundes Telles...
  
− Parti da realidade para a ficção. Sei que em estado bruto minhas meninas existem, estão aí. Como ponto de partida tomei-as assim meio informes, sem características mais profundas, os traços ainda indefinidos; vieram como nebulosas. Tomei-as e fui trabalhando em cada uma, lenta e pacientemente, afinal, tudo somado, creio que há mais de três anos, convivi intimamente com essas três: Lorena, Lia e Ana Clara. Em qual delas eu fiquei mais? Ah, difícil dizer. A uma dei um gesto, a outra, um pensamento mais secreto que morreu em minha boca para renascer na de Lorena ou Lia... As personagens são como vampiros, cravam os caninos na nossa jugular e, quando amanhece, voltam aos seus sepulcros até que anoiteça de novo. O fim do livro é a tampa que baixa sobre esses nossos visitantes. Definitivamente? Não. Um dia, de repente, com outro nome e outras feições, volta escamoteada a mesma personagem, elas gostam da vida. Como nós.
 
2 - Que importância tem o amor na infraestrutura de suas personagens?
− Importância definitiva. Escrevi esse romance [As meninas] com o maior amor, me emocionei com as personagens principais, que são jovens e amam e desamam o tempo todo e nesse desandar emocional fui também me comovendo, mas sem perder as rédeas no galope, um galope perigoso porque pode descambar para o sentimentalismo. Então a gente precisa ficar completamente lúcida para que o Amor – que é imprevisto, loucura – não se enfraqueça na sua própria força.
 
3 − O escritor pode às vezes ter remorso do que faz com as personagens?
− Sim, pode ter remorso. Como a gente pode ter às vezes remorso com as personagens de verdade, aquelas que um dia a gente feriu – sem querer ou não, consciente ou inconscientemente – e esse ferimento que não cicatriza é visível até na morte. Ah, o remorso.  Eu não queria matar a jovem – a mais louca delas – mas descobri que o remorso que eu teria por deixá-la viva seria mais agudo do que se a eliminasse.
 
4 - Que é que você pensa do papel do escritor? Da luta do escritor?
− Nesta nossa guerra sem testemunhas temos que ser principalmente as testemunhas dessa nossa sociedade com todos os seus vícios. E raras virtudes. Lutar com as palavras é a luta mais vã/ entanto lutamos/ mal rompe a manhã. Mal rompe a manhã. Uns lutam com o cimento armado. Com as leis. Com os bisturis. Com as máquinas – tantas e tão variadas lutas. Eu luto com as palavras. É bom? É ruim? Não interessa. É a minha vocação.
 
Lygia Fagundes Telles pergunta a Lêdo Ivo...
 
A – Por que o seu romance tem, como subtítulo, “uma história mal contada”?
− Porque, na verdade, é uma história mal contada, quer como técnica de narrativa, quer como intenção deliberada do autor de apresentar um pequeno universo imaginário fervilhante de suposições, dúvidas, versões e interrogações sobre a própria realidade da intriga. Entendo, aliás, que o romance, como história bem contada, pertence à literatura do século XIX. Flaubert, Balzac e Tolstói são os grandes mestres, nesse sentido. As transformações que desde o começo deste século se acentuaram no romance, documentando incontáveis mudanças em sua forma, forçaram os romancistas a adotar um sistema narrativo caracterizado pelo contraponto e pela polilinearidade (que substituem a linearidade clássica) − Joyce, Faulkner, os expoentes do nouveau romanfrancês [...] aí estão, ao lado de Proust e de Henry James, para testemunhar essa nova realidade do romance.
 
B – Ninho de Cobrasé um romance de amor?
− História, ou conjunto de histórias que refletem os sentimento fundamentais do homem – amor, ódio, medo, ambição,  incerteza – o meu livro é, também, um romance de amor. Assim como é um romance de terror e violência, ou de busca e perseguição de uma verdade que tanto é divina como é humana. A minha intenção foi contar uma história, ou malcontar uma história.
 
C – A raposa que, no seu romance, percorre a cidade adormecida e depois é abatida, tem algum sentido simbólico?
− A leitura de um romance funde a imaginação do autor com a do leitor, que também “colabora” com a obra, na medida em que a interpreta ou a reinventa à sua maneira. Dentro dessa perspectiva, a raposa do meu romance pode significar algo – a fonte da vida, a inocência, a liberdade, o amor  – mas isto depende do leitor empenhado em ver numa obra os vários níveis de significados que estiveram ou não presentes durante o seu processo de criação. Mas é preciso reconhecer que, às vezes, certas verdades, evidências, aspirações ou angústias penetram numa obra sem que o autor o pressinta na ocasião em que a escreve.
 
D – Quais são os seus romancistas prediletos?
 
− Depende do ano, do mês e da hora. Além disso, não sei se esses autores favoritos (Proust, Melville, Dostoievski, Flaubert, Balzac), realmente me influenciaram, ou se minhas marcas devem ser buscadas em outros lugares – numa bula de remédio, num romance policial ou num anúncio de jornal.
 
E – A literatura está morrendo?
− Documento e testemunho do homem e da vida, ela existirá enquanto existir o mundo. Algúem tem que dizer o que está realmente acontecendo. E este alguém são os poetas, pintores, escultores, músicos, romancistas. Isto é, alguém dotado da capacidade de ver e de contar ao seu semelhante o que viu e sentiu, através de uma forma artística dotada de validade e emoção
 



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